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PRÓLOGO

A caminhonete vermelha rodava pelas ruas quase desertas da região portuária, o lugar era cercado por enormes armazéns abarrotados de mercadorias que, em algum momento, seriam embarcadas em grandes navios cargueiros. O veículo reduziu a velocidade até estacionar próximo ao único bar-restaurante das redondezas.

Era véspera de um feriado prolongado e nuvens escuras prenunciavam um dia chuvoso.

Após descer da antiga pickup reformada, era um modelo Chevy fabricado em 1954, o motorista teve problemas para travar a porta, era sempre assim, correr para escapar das primeiras gotas de chuva e se esconder no bar que acabara de abrir.

O estabelecimento tinha janelas largas envidraçadas que expunham a rua vazia. O movimento seria fraco naquele dia, com os trabalhadores do porto fugindo para o lazer e descanso de três dias.

O homem escolheu uma mesa junto a maior janela até que alguém resolvesse vir atendê-lo. O bar estava quieto, sem pressa e sem clientes. O único frequentador olhou para as garrafas enfileiradas na prateleira atrás do balcão. Decidiu não beber nada que o deixasse zonzo naquela manhã. Pediria um café bem forte a fim de espantar o tédio e rever algumas anotações para o seu próximo livro.

Seus olhos escuros avaliavam o ambiente, pois nunca havia estado ali, todavia, era um local que oferecia o que ele mais queria naquele instante: sossego para relaxar.

A chuva apertou e os pingos repicavam muitas vezes na lataria do robusto Chevy 1954.

O escritor solitário não tinha pressa. Pouco se importava se demoravam a vir a sua mesa para fazer o pedido. O seu maior comprometimento era em repensar sobre o que havia se passado com ele uma hora atrás: a discussão que teve com o seu editor, a qual o deixara colérico. As insistentes propostas de inventar histórias para fazer seu livro vender mais eram uma grande afronta à seriedade do seu trabalho e um desrespeito à sua dignidade. Nunca antes havia usado de artimanhas para que suas obras tivessem aceitação do público e da crítica, e não seria agora que lançaria mão de ardis para enganar seus leitores com o intuito de vender seus livros. Estava convencido de que a ganância havia transformado o bom e honesto editor em um maníaco inconsequente que agora só pensava em ganhar dinheiro com o mercado literário.

A sua última publicação Fábulas e Mitos, o que há de verdade neles, havia atingido mais de quinhentos mil exemplares vendidos pelo mundo afora. Desse modo ele havia conquistado respeito e admiração.

Era um pesquisador ferrenho e dedicado, todas as suas teorias tinham um cunho científico e estavam bem amarradas e embasadas. Quando não havia respaldo para levar em frente a sua investigação, decidia, então, abandonar meses de estudos e sacrifícios com a mesma facilidade que se amassa uma folha de papel rasurada e a joga em um cesto de lixo.

A chuva se avolumava lá fora e as calhas do armazém em frente ao bar expulsavam jorros de água na calçada.

As sarjetas formavam pequenos rios que desciam a rua na direção do porto.
Ele cerrou os olhos para reposicionar as ideias e pensar sobre o que deveria fazer a partir dali. Estava preso a um maldito contrato que exigia dele mais quatro publicações, caso contrário a multa rescisória o arruinaria. Obviamente nada o obrigava a fraudar o conteúdo de sua obra ainda inédita. Contudo, a pressão exercida pelo seu algoz editorial abalava a sua serenidade.

Quando os seus olhos voltaram a se abrir, o aborrecido escritor se deparou com a presença de uma pessoa de pé ao seu lado. Num primeiro momento imaginou ser o empregado do bar que, finalmente, achou por bem vir atender à única mesa ocupada. Não era.

Junto dele estava um homem muito idoso que o observava com algum interesse.

- Me permite desfrutar de sua companhia? - pediu o sujeito de idade bastante avançada.

Não obstante o dia chuvoso e calorento, o velho vestia uma camisa cáqui de mangas compridas abotoadas no punho. Seu olhar era jovial, embora o seu rosto trouxesse as marcas rugosas de muitas décadas vividas.

O escritor resistiu em aceitar dividir sua mesa com alguém, principalmente um estranho. Preferia ficar sozinho e decidir o que fazer a respeito da questão incômoda entre ele e seu inescrupuloso editor. Deu-se por vencido e sua educação falou por ele, gesticulando meio a contragosto para que o ancião puxasse uma cadeira e se sentasse.

- Não há muito o que fazer por aqui a não ser observar, entre um e outro gole de café, a chuva caindo na rua. - o velhote puxou assunto, desejando mostrar-se afável.

O escritor esfregou as mãos com declarada impaciência e comentou.

- Ouvi dizer que chove durante todo o feriado. - e viu um cão do outro lado da rua encolhendo-se na enxurrada, o pêlo encharcado, a expressão triste e assustada.

- Eu o conheço. - afirmou o velho - Você escreve sobre lendas e coisas do tipo. Li toda a sua obra e, obviamente, aprecio o que faz. Desde bem pequeno me interessei por histórias fora do comum. - e acrescentou, demonstrando conhecer bem sobre o escritor - Você assina como L. A. S. Dypes...

- É o meu nome: Lucad Anacleto Sidromus Dypes. Ficaria muito extenso na capa de um livro. - explicou, daí olhou pela janela, o cão havia desaparecido.

- Você deve ter vivido experiências emocionantes em suas viagens pelo mundo. Testemunhado coisas que a maioria das pessoas nem sonharia em ver.

Lucad apenas assentiu com a cabeça. Estava impaciente com a intromissão educada do homem diante dele. Pensou em arranjar uma desculpa, se levantar e ir embora. Mas não houve tempo, pois o velho o interpelou com uma pergunta aparentemente óbvia.

- Gosta de ouvir histórias, senhor Dypes?

- Eu vivo delas. - respondeu secamente.

Lucad notou pela expressão do velhote que a resposta não foi exatamente a qual ele esperava ouvir. Havia algo nos olhos daquele indivíduo, um segredo, um enigma, aguardando para ser desvelado. Lucad sabia disso. Tinha muita experiência em entrevistar pessoas e conseguia identificar uma história verdadeira dentre centenas de outras contadas por mentirosos ávidos por fama. Imediatamente corrigiu o que havia dito.

- Me interesso por boas histórias, desde que sejam verdadeiras. E acho que o senhor tem algo muito interessante guardado em suas lembranças. O que me diz?

- Você é um rapaz muito esperto, Lucad. Mas não consigo falar por muito tempo sem tomar algo. E o que tenho para lhe revelar é uma história muito, mas muito longa. Está mesmo disposto a escutar um velho carcomido pelos anos?

Pediram a mesma coisa, grandes xícaras de café preto e sanduíches de queijo e presunto.

A chuva que persistia fustigando, inclemente, não dava sinais de cessar.

O ancião prendeu a xícara com as suas mãos enrugadas, bebericou o café quente, e começou a narrar a sua surpreendente história.

DIVINA PROVIDÊNCIA

Foi numa tarde de maio de 1539.

A Nau Divina Providência já navegava há quarenta e dois dias cruzando o imenso oceano Atlântico rumo ao novo continente hoje conhecido como América do Sul.

O mar se mostrava calmo naquele dia. O vento que soprava de nordeste para sudoeste estufava as velas distendidas como o tórax de gigantes, fazendo com que a embarcação de mais de setecentas toneladas atingisse a velocidade de onze nós com facilidade, cortando o oceano impetuosamente rumo ao seu destino. A nau portuguesa não tinha a mesma navegabilidade das ágeis caravelas, mas era ideal para o fim a que se destinava: transportar grande quantidade de carga e passageiros que deveriam desembarcar no auspicioso e misteriosamente fascinante Novo Mundo.

O entardecer conferiu um tom dourado às velas abertas e as primeiras estrelas despontavam timidamente no leste, anunciando a chegada de outra noite que tudo levava a crer ser marcada pela quietude.

Alguns tripulantes, esparramados pelo convés, descansavam preguiçosamente sem se darem conta do que estava para acontecer naquele dia fatídico.

Uma figura baixa e atarracada usando longas costeletas grisalhas dirigia-se rapidamente em direção ao castelo da popa, seu andar era cambaleante por ter as pernas arqueadas, o convés de tábuas grossas rangiam sob seus pés.

A cabine do Capitão Gaspar Manuel dos Reis era pequena, mas de extremo bom gosto para os padrões e as condições dos navios onde a falta de higiene era comum; ratos e baratas infestavam os porões, dividindo o espaço e a comida com a tripulação. Muitos adoeciam e até morriam durante as viagens que, de tão longas, pareciam intermináveis.

Uma mesa e cadeiras de carvalho compunham o ambiente sóbrio da cabine de comando. Duas lamparinas pendiam do teto e dançavam ritmadas ao balanço provocado pelas ondas do mar, e uma janelinha deixava entrar os últimos raios de sol iluminando fracamente o interior da cabine.

O Capitão Gaspar Manuel já passava dos quarenta anos, sua barba bem aparada e suas vestes cobertas por um gibão, que ia até a altura dos joelhos, lhe conferiam uma aparência digna de sua posição de liderança.

- Com sua licença, caro senhor. – disse mestre Pedro Martins ao adentrar o aposento,daí fechou a porta atrás de si, suas costeletas pareciam se afastar para cima quando ele fez menção de continuar falando, no entanto, foi interrompido.

- Algum problema, marujo? – perguntou o comandante ao erguer os olhos semicerrados, deixando de lado suas anotações no diário de bordo.

- Ao contrário, capitão. – respondeu, cheio de ânimo, a voz dísfona – As notícias são favoráveis. Devemos avistar terra daqui a três dias, se não enfrentarmos nenhuma calmaria.

A boa informação satisfez o capitão, pois sendo ele um homem de confiança da Coroa Portuguesa, teve a importante incumbência de conduzir com segurança os fidalgos, artífices e demais passageiros que deveriam compor a administração e exploração das terras descobertas há quatro décadas. Portugal iniciava um difícil desafio de colonização dos seus territórios além-mar recobertos por léguas e mais léguas de florestas desconhecidas e habitadas por gente de pele morena e animais exóticos. Um imenso continente a desbravar.

- Libere um pouco de vinho e biscoitos para a tripulação. - ordenou o capitão, voltando o olhar através da pequena janela para a esteira de espuma formada pela passagem do Divina Providência – Preciso de todos os homens bem dispostos nos próximos dias.

Pedro fez um aceno com a cabeça, concordando, e seguiu rumo ao depósito de mantimentos. A chegada da noite escurecia o horizonte.

Era tema corriqueiro das conversas a bordo, as lendas fantásticas contadas como verdadeiras entre os homens que passavam a maior parte de suas vidas no mar ou nos portos, em tavernas mal iluminadas frequentadas por gente de todo tipo. Afinal, as superstições eram bastante comuns aos homens do mar que invariavelmente navegavam por lugares desconhecidos. Tais histórias eram regadas à cerveja e música, por vezes rompendo a madrugada e indo até o raiar do dia. Sempre havia alguém que conheceu um pobre diabo que por pouco não escapou de ser devorado por algum monstro marinho surgido repentinamente no meio de uma tempestade. Relatos de ruídos estranhos no casco anunciavam o aparecimento de serpentes gigantescas que, ao se enroscarem na embarcação, arrastavam-na e a todos a bordo para o fundo, deixando apenas destroços como vestígio, ou nem isso. Outras histórias descreviam polvos descomunais com tentáculos tão longos como grandes mastros e que, desferindo um abraço fatal, destroçavam qualquer navio em mil pedaços. O fato é que muitos juravam ter visto criaturas grotescas, demônios e bestas de todas as formas e tamanhos ameaçando suas vidas miseráveis a cada viagem. Viam, ou imaginavam ter visto, olhos cintilando no meio do oceano escuro, espreitando e aguardando o melhor momento para arrastar os pobres infelizes para as profundezas do inferno. Essas e muitas outras lendas povoavam as mentes e as conversas daqueles que passavam meses ou mesmo anos entre céu e mar.

No convés, três dos marinheiros que descansavam de seu turno depois de um árduo dia de trabalho, entretinham-se falando sobre um dos assuntos preferidos.

Apoiado na amurada estava Diogo, um experiente marinheiro que, apesar dos seus cinqüenta e tantos anos, ainda possuía o vigor e a agilidade de um jovem grumete. Seu rosto coberto por uma barba espessa, aumentava a severidade de suas palavras. Profundas cicatrizes nos braços curtidos pelo sol eram testemunhas de uma vida rude que levava desde os treze anos de idade. Comentava-se que ele era um homem de mau agouro como um corvo que surge pela janela em meio a um temporal. Falava de um jeito como se as desgraças flutuassem sobre as cabeças dos incautos. Um profeta do infortúnio.

- Estas águas são amaldiçoadas – afirmou ele, usando de dramaticidade – Essa calma aparente pode ser traiçoeira. Acreditem!

- Estamos quase chegando, mais alguns dias e pisaremos em solo firme. – tentou tranquilizá-lo seu companheiro Antonio, um jovem marinheiro alto e magricelo, com pouca experiência na arte da navegação e que não tinha muita convicção em suas próprias palavras.

- Além disso, o céu está limpo e duvido que tenhamos alguma mudança no tempo antes de atracarmos – Completou Felício, um terceiro marujo de rosto redondo e ar bonachão, verificando o céu negro e estrelado.

- Pois aí é que vocês se enganam, amigos – persistiu Diogo, olhando enigmaticamente um a um, Antonio e depois Felício – As desgraças também acontecem em dias como esse. O tempo muda de repente, o vento deixa de soprar e algo terrível acaba com nossos sonhos e nossas vidas.

Todos foram interrompidos pela voz disfônica de mestre Pedro.

- Comemorem! – gritou ele – O Capitão mandou distribuir vinho e biscoitos para festejar o fim de nossa viagem que se aproxima. Comam e bebam, mas mantenham-se sóbrios ou serão pendurados no mastro grande até o fim da viagem.

Disse aquilo e ergueu o primeiro copo de vinho, deixando escorrer pelos cantos da boca a bebida preciosa. A aprovação foi geral e a marinhagem se aproximou do tonel, disputando, com algum rebuliço, a sua parte.

- Viu?! – disse Antonio, o marujo magricelo a Diogo – Nossa sorte está mesmo mudando, para melhor.

- Eu diria que para muito melhor. – acrescentou Felício, deliciando-se com a visão das canecas sendo abastecidas.

- O diabo é astucioso e enganador. – retrucou Diogo, seu olhar se apertou – Primeiro ele nos dá migalhas e nos deixa felizes e desatentos, mas logo se aproveita de nossa ingenuidade e suga nossas almas para que padeçam no seu mundo infernal por toda a eternidade.

Uma hora após o modesto banquete, o silêncio voltou a reinar quebrado apenas pelo ranger dos cabos do velame ao roçarem nas malaguetas e ferros e pelas ondas que batiam incessantemente no casco. A noite, já absoluta, cobria com seu escuro véu a embarcação.

O cansaço fez com que a maioria dos tripulantes, aqui e ali, fosse mergulhando em um sono pesado, improvisando rolos de cordas como travesseiros e panos imundos como aconchegantes cobertores que os protegiam da fria brisa do mar.

Antonio, o jovem marujo magricelo, deitou-se próximo ao castelo de popa e pôs-se a observar o céu perfurado de estrelas, ele notou que a lua nascente lançava o seu brilho de mármore projetando compridas sombras e formando imagens indefinidas pelo convés. As palavras de Diogo arranhavam a sua mente, mas aos poucos, vencido pela preguiça, adormeceu embalado pelo suave balanço do mar como um bebê sob o olhar materno.

O enigmático marujo Diogo, debruçado na amurada, tentava sem sucesso enxergar através da escuridão que enegrecia o horizonte. Ele sabia que estavam navegando numa área onde se registravam vários naufrágios sem uma explicação satisfatória. O sono não vinha e Diogo tentou se distrair fixando o olhar na estrada de luz que o reflexo da Lua formava no oceano.

Diogo quase estava se convencendo que naquela noite teria um pouco de paz e, contrariando as suas mais sombrias expectativas.

Do interior de sua cabine o capitão Gaspar Manuel revisava, juntamente com o seu piloto, Fernando de Souza Bento, os últimos cálculos realizados com o auxílio da bússola e do astrolábio, concluindo que a rota a qual haviam traçado estava correta.

O piloto Fernando, de cabelos louros e pele clara ruborizada pelo sol, aparentava não ter mais do que trinta e cinco anos, acumulava um forte conhecimento técnico marítimo que conquistou a confiança de seu capitão e de toda a tripulação. Porém, sua maior experiência era as rotas do oriente onde havia passado os últimos oito anos costeando a África quando rumava para os entrepostos comerciais na Índia.

- Perfeito, capitão! – afirmou Fernando, com veemência. – Há muito não fazíamos uma viagem tão bem sucedida, pelo que me recordo nem mesmo em nossas empreitadas pela costa africana.

- Fora as calmarias, as correções de traçado no percurso e as brigas a bordo, os resultados foram positivos. - acrescentou o capitão, com palavras bem humoradas – Mas só me darei por satisfeito quando deixarmos essa gente da comitiva da Coroa em terra firme. As recomendações foram muitas para que eles tenham o melhor tratamento ao longo dessa viagem. – concluiu, apoiando os cotovelos sobre a mesa e acarinhando com as pontas dos dedos a barba que quase lhe escondia o rosto.

Lá fora, Diogo o marinheiro, inclinou-se sobre a amurada ao perceber que algo estranho estava ocorrendo. Sem que houvesse motivo aparente, alguma coisa sacudiu o barco e as águas se tornaram encrespadas. Voltando-se e percorrendo rapidamente o velame com o olhar, não notou nenhuma mudança na direção ou velocidade dos ventos.

- Droga, está acontecendo! – ele praguejou, disparando em direção a cabine do capitão.

Diogo abriu a porta com violência e gritou com nervosismo.

- Os malditos demônios vieram buscar nossas almas, senhores!

- O que deu em você, marujo?- disse exaltado o piloto Fernando, repreendendo-o, imaginando que uns goles a mais do vinho tinham afetado o seu juízo.

- As águas, venham ver as águas. – insistiu Diogo, voltando-se para o convés.

O capitão e o piloto seguiram-no ainda sem entender o que acontecia. Mas ao olharem o mar a sua volta compreenderam que algo estava muito errado.

- Estamos fora de rota, senhor. – disse o piloto ao observar a posição das estrelas, em seguida subiu as escadas que davam na parte superior do castelo de popa onde se localizava a roda do leme.

- O diabo nos aguarda para dar o seu abraço mortal! – dramatizou Diogo, com voz profética e os olhos fixos no mar cada vez mais agitado.

- Todo o leme a bombordo – ordenou o piloto ao timoneiro.

- Já virei todo o timão, senhor, mas estamos sendo arrastados para oeste.

Fernando verificou as velas sem se dar conta de por que o Divina Providência não se deslocava para o sudoeste.

- Mantenha o leme todo a bombordo, - disse o piloto enquanto descia as escadas e procurava o capitão no meio da escuridão.

Alguns passageiros, ao perceberem a agitação e a gritaria, saíram de suas cabines exigindo explicações sobre o que ocorria. O capitão procurou acalmá-los pedindo que voltassem aos seus aposentos. Disse que estavam atravessando um encontro de correntes marinhas e que logo tudo estaria bem. Ele mesmo não acreditava no que estava dizendo.

- O leme não responde, capitão!– disse ofegante o piloto enquanto olhava as águas ainda mais encrespadas a sua volta – Estamos sendo arrastados por uma força invisível.

Pela cabeça do capitão rodopiavam mil pensamentos. Aquilo não devia estar acontecendo. Havia mulheres e crianças a bordo. Ele precisava fazer alguma coisa. Mas o quê?

- Baixem a âncora!- gritou o Capitão numa atitude desesperada – Tentaremos roçar o fundo para diminuir a velocidade! – Se houver fundo – pensou.

A âncora foi lançada, mas a velocidade só parecia aumentar. A luta travada pelos ventos contra as velas e a forte corrente começava a tombar a Nau, fazendo com que os tripulantes e os passageiros corressem para o convés, aumentando a confusão que se instalara.

Um dos líderes da comitiva que iria desembarcar no Novo Mundo, agarrou o capitão pelo braço e sem ter noção do que acontecia, perguntou com voz trêmula.

- O que se passa? Os passageiros estão apavorados. – o capitão notou que o homem atracado ao seu braço era o vigário que foi designado para dirigir uma paróquia em um dos povoados da novíssima colônia portuguesa.

- Eu não sei. – respondeu friamente, os olhos fixos na escuridão da noite. – Só nos resta esperar. – então as palavras saíram lúgubres de sua boca - Rogue por nossas vidas, vigário. Se não for o bastante, implore a Deus pelas almas dessa pobre gente.

Nenhum dos trezentos e vinte e dois tripulantes e passageiros do Divina Providência haviam passado por algo semelhante. A velocidade ultrapassara os vinte nós naquele momento, ameaçando romper a estrutura da nave de grande tonelagem.

- Senhor, temos que alinhar o curso do navio ao arrasto ou iremos a pique. – avisou o piloto Fernando, como sendo um ultimato.

- Então faça rápido, piloto. – concordou, refletindo sobre o que devia ter feito de errado para se encontrar naquela situação.

O breu da noite, pouco iluminado pelas estrelas e pela Lua que aos poucos ganhava altura, dificultava as ações dos tripulantes que se apinhavam no convés aguardando uma ordem milagrosa do capitão como se ele pudesse salvá-los. Mas a ordem nunca vinha.

- Terra, terra à vista! – berrou a todos pulmões um marinheiro que se postava no cesto da gávea localizado no mastro principal, e que observava de uma privilegiada perspectiva o tumulto lá embaixo.

- Onde você vê terra, marujo? – gritou o capitão, postando as mãos junto a boca para melhor se fazer ouvir.

- Bem à frente, senhor!

- Descreva o que consegue avistar.

- Ainda não está bem visí...- ele interrompeu o que ia dizendo com uma breve pausa, procurando identificar melhor, e emendou – Rochedos! Agora posso ver as ondas se quebrando neles! – e enchendo os pulmões novamente, disparou – Vamos bater! Vamos bater!

Do convés avistaram a muralha de rochas que se erguia pela frente. Os gritos desesperados do marinheiro levaram pânico a todos; alguns se jogavam nas águas revoltas tentando evitar o choque inevitável; famílias inteiras se abraçavam sem saber o que fazer; outros se agarravam ao comandante do Divina Providência, implorando para que suas vidas fossem salvas. Pela primeira vez o capitão Gaspar Manuel dos Reis sentiu que a situação fugira completamente do seu controle.

Àquela altura,tornava-se bem nítida a visão da fúria do mar se arrebentando contra os rochedos que eram mais altos do que o cesto da gávea, agora abandonado pelo marinheiro que presenciou tudo desde o começo.

O capitão se esforçava para localizar, naquela muralha inexpugnável, um ponto onde pudessem se agarrar e assim tentar salvar o maior número de vidas, mas era um paredão muito íngreme e que parecia crescer a cada segundo à medida que a nau se aproximava atingindo perigosamente a velocidade de trinta nós. A estrutura de madeira do navio começava a se desmantelar produzindo estalos por toda parte e que só intensificavam o pavor generalizado.

Por um breve momento, o capitão observou toda a desordem como se esta passasse lentamente diante dos seus olhos: as pessoas correndo de um lado para outro, uns caindo na sua frente... e os gritos, muitos gritos. Os sons lhe eram quase imperceptíveis e toda a sua vida foi lembrada numa pequena fração de tempo.

O impacto violento interrompeu seus pensamentos, despertando-o de seu transe e o arremessando à longa distância. Os estampidos de madeiras se quebrando se misturavam aos gritos agonizantes e ao estrondo ensurdecedor das ondas explodindo nos rochedos.

O capitão já não sabia direito onde estava, procurava agarrar-se com todas as suas forças a um pedaço da amurada que se partiu, enquanto via o mastro principal tombar trazendo na sua queda vários cabos e amarras que iam sendo tragados pelas ondas.

A violência das águas atirava pessoas e pedaços da embarcação contra os rochedos. Não restava mais nada a fazer. Ele mesmo foi jogado violentamente contra o paredão, ferindo o ombro e o joelho esquerdos. Precisava sair dali ou morreria despedaçado.

Tenho que fugir desse inferno. Talvez se nadar para o outro lado eu encontre uma saída – pensou.

Numa última olhada ainda conseguiu ver o que se tornou o Divina Providência, agora transformado em um monte de destroços atirados repetidamente contra o gigantesco paredão.

Seu raciocínio era confuso. Ele nadou e lutou contra a morte por muito tempo. O cansaço tomava conta do seu corpo e todos os seus músculos doíam, o ar parecia não querer entrar mais em seu peito. Quando pensava em desistir, avistou uma faixa de areia que reavivou as suas forças.

Preciso conseguir – continuou com aquele pensamento obstinado, lutando e tentando assim não desistir.

Então nadou com maior ímpeto mesmo que as águas enfurecidas continuassem batendo-lhe no rosto, dificultando muito mais a sua respiração ofegante. Com muito esforço, conseguiu sair da água, arrastando-se pela areia de uma pequena praia, os dedos enterrando-se na areia úmida e o joelho ardendo com o ferimento. Procurou, com muita dificuldade, levantar-se, mas foi superado pela exaustão e caiu desfalecido. O vai-e-vem das ondas molhava os seus pés, entretanto, ele já não respondia a nenhum estímulo.

Horas haviam transcorrido quando o capitão abriu os olhos lentamente e a primeira coisa que viu foi a Lua que ia alta no céu tomado de estrelas. Ele sentou-se e olhou ao seu redor, conseguindo discernir apenas umas poucas dezenas de metros até onde sua visão alcançava, os restos do naufrágio espalhados pela praia. Alguns corpos inertes despertavam sua dúvida se jaziam mortos ou somente permaneciam desacordados pelo extremo esforço na tentativa de sobreviverem.

O capitão levantou-se claudicante buscando se orientar melhor, e caminhou para o interior do terreno desconhecido, que tudo indicava ser uma ilha não identificada em suas cartas náuticas. Havia pouca esperança de conseguir ajuda naquele fim de mundo, mas ele não tinha alternativa e resolveu prosseguir. O luar clareava com palidez o caminho a sua frente confundindo a visão embaçada pelo castigo que lhe foi imposto. O marulhar das ondas rosnava atrás dele, e se distanciava, abafado pela sinistra quietude do interior daquela terra estranha.

O silêncio foi interrompido por um grito apavorante que deveria vir de onde o seu nariz apontava. Ele correu e viu mais adiante uma intensa luz emanando do que poderia ser a entrada de uma caverna. Seu impulso de aventureiro fez com que ele ali entrasse, apoiando-se nas paredes rochosas, sentindo estranhamente uma forte pressão nos ouvidos, que reduziu sensivelmente sua audição. Passo a passo, prosseguiu na direção da luz que lhe era mais e mais brilhante. Foi naquele instante que o capitão ficou estarrecido ao deparar-se com aquela coisa. Seus olhos se arregalaram diante da visão aterradora. Algo que ele jamais esqueceria enquanto vivesse.

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